terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Cronica - Desabafo de uma mulher moderna


Afastando as memórias quando ouve a risada do neto o pequeno Alberto de apenas 3 anos com sua irmã Nina de oito anos, que doçura e imenso prazer estar ali, naquele momento o tempo poderia parar.
 A terapia semanal parecia mexer com Eleonora se perguntava o porquê as lembranças se apresentavam sem serem chamadas, gostaria de esquecer os 35 anos de dor, lagrimas e humilhação. Eu procurava explicar a ela que a medida em que novas emoções e novos momentos de real peso emocional se apresentassem haveria uma sobreposição de lembranças e que aos poucos quando as lembranças ruins fossem esclarecidas compreendidas e principalmente discutidas para retirar de Eleonora o peso da culpa que ela carregava. Haveria enfim tranquilidade e harmonia.
Domingo dia 13 de dezembro de 2015.
A terapia era um momento de enfrentar a realidade sempre com a segurança de um terapeuta, falar sem medo afinal Eleonora se mostrava cada vez mais autentica.
Quando falava dos filhos sempre justificava um comportamento ou outro com as lembranças tristes dos momentos passados com Waldemar. Eu a ouvia falar:
-Quantas vezes eu desejei que ele morresse. Dr Jota, chorava baixinho pra meus filhos não ouvir, algumas vezes eu o enfrentei e apanhei, era um empurrão, um aperto nos braços me jogava contra a parede e segurava a minha mão e me mandava calar a boca, jogava as cadeiras contra a parede e urrava coisas absurdas e palavrões de baixo calão, conseguiu quebrar meu dedo quando tentei me soltar…. Logo em seguida eu gritei e ele me largou, Carlinhos chegava da escola alegrinho apenas 12 aninhos um bom menino sempre carinhoso e amoroso, meu neném.
- O que houve mãe?
-Nada eu cai, vou ir no médico você vem comigo filho?
-Claro que sim.
A vida corre sempre mostrando o que deveríamos fazer, nós é somos cegos e surdos aos seus avisos. Ao ser examinada ela continua mentindo, a mão fica muito inchada e o médico avisa que terá que cortar a aliança para não piorar o quadro, realmente estava com o polegar quebrado e o inchaço afetava toda a mão. Eleonora permite que o médico corte a sua aliança e a partir desse dia nunca mais usaria alianças. Era o mês de abril de 1999.
Continuava casada e sempre sentindo o medo de viver com alguém sem controle, eu queria entender como as mulheres ficam presas a isso, era sempre a mesma consideração Eleonora sempre voltava ao passado e buscava respostas para sentir-se um pouco menos mal.

Suas Histórias me comoviam e nos meus 30 anos de profissão já ouvira muitos relatos eu torcia muito para que Eleonora fosse enfim feliz com seu novo ou primeiro amor Heriberto. Quando falava do namorado tecia elogios e falava com admiração, próprios de quem está apaixonada, mas eu percebia nela uma ponta a mais de maturidade ela se colocava agora em primeiro lugar, não aceitaria ser humilhada ou aceitaria as migalhas de carinho que sempre aceitou do pai de seus filhos, havia um novo brilho no olhar e uma pessoa que estava colando seus pedaços.

Luddy Chan

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